Combustível chegou a US$ 4,095 por galão, enquanto tensão no Oriente Médio mantém mercado de petróleo sob pressão

Fonte: Internet

O preço médio da gasolina nos Estados Unidos atingiu US$ 4,095 por galão na segunda-feira, valor cerca de 30% superior ao registrado no mesmo período do ano passado, segundo dados da American Automobile Association (AAA). A alta levou o presidente Donald Trump a voltar a pressionar as grandes petroleiras americanas pela redução dos preços, em um momento de instabilidade no mercado internacional provocada pelo conflito no Oriente Médio.

Trump criticou os lucros das empresas do setor e afirmou que os consumidores americanos não deveriam continuar pagando valores tão elevados pelo combustível. O presidente defendeu que as companhias repassem aos consumidores os benefícios das medidas adotadas por seu governo para ampliar a produção de petróleo no país.

“Não gosto disso. Eu deveria ser a última pessoa a dizer isso, porque sou um grande defensor da livre iniciativa, ninguém mais do que eu. Estão surpresos por eu dizer isso? Vou dizer em alto e bom som. Não estou satisfeito”, declarou Trump a jornalistas na Casa Branca.

Petróleo disparou com tensão no Estreito de Ormuz

Apesar da pressão do governo americano sobre as empresas, especialistas apontam que os preços dos combustíveis nos Estados Unidos permanecem fortemente vinculados ao mercado internacional de petróleo.

A crise envolvendo o Estreito de Ormuz tornou-se um dos principais fatores de pressão sobre as cotações. Pela região passa cerca de 20% da produção mundial de petróleo. Diante de ameaças de bloqueio ou interrupção do fluxo, investidores passam a considerar a possibilidade de redução da oferta global, aumentando as cotações da commodity.

O petróleo Brent, principal referência internacional do setor, chegou a passar de aproximadamente US$ 70 para US$ 126 por barril durante a escalada do conflito no Oriente Médio. Posteriormente, a cotação recuou para perto de US$ 80 na terça-feira (4), diante de sinais de avanço nas negociações entre Estados Unidos e Irã.

Mesmo com o recuo do petróleo, a redução não chega imediatamente às bombas. Segundo Nivaldo de Castro, coordenador do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contratos e estoques retardam o repasse das variações.

“As refinarias trabalham com estoques e contratos de curto, médio e longo prazo. Por isso, uma eventual queda do petróleo leva tempo para chegar ao consumidor”, explicou.

Petroleiras ampliam lucros durante período de alta

O avanço das cotações internacionais também elevou os resultados financeiros das grandes produtoras. ExxonMobil e Chevron registraram juntas lucro de US$ 29 bilhões, aproximadamente R$ 147 bilhões, no segundo trimestre.

O resultado representa mais de três vezes o registrado pelas duas empresas no mesmo período do ano anterior.

Trump chegou a criticar publicamente o CEO da Chevron, Mike Wirth, por, segundo o presidente, não reconhecer o papel da atual administração no fortalecimento da indústria petrolífera americana. Na Truth Social, Trump afirmou que seu governo “salvou” o setor e mencionou o retorno da Chevron à Venezuela.

As críticas também alcançaram a ExxonMobil, uma das maiores produtoras de petróleo do mundo.

Alta da gasolina muda hábitos dos consumidores

Os efeitos dos preços elevados já aparecem no comportamento das famílias americanas. Em maio, quando o preço médio do galão da gasolina comum estava ainda mais alto, em US$ 4,52, consumidores relataram redução nas viagens de carro, concentração de compromissos em trajetos menores e maior utilização do transporte público como forma de economizar.

Pesquisa da Ipsos divulgada pelo Washington Post e pela ABC News apontou que 44% dos americanos reduziram a quantidade de viagens de automóvel devido à alta dos combustíveis.

Especialistas ouvidos pelo g1 avaliam que a pressão pública exercida por Trump sobre as petroleiras possui impacto político, mas capacidade limitada de alterar diretamente os preços pagos nos postos.

Isso ocorre porque, embora os Estados Unidos sejam o maior produtor mundial de petróleo, o preço da gasolina continua condicionado pelas cotações internacionais, pela estrutura do parque de refino e pelos custos envolvidos na distribuição do combustível.

Estrutura das refinarias mantém EUA ligados ao mercado global

Parte das refinarias americanas foi projetada para processar tipos de petróleo mais pesados do que aquele atualmente extraído em grande quantidade no próprio país.

Na prática, os Estados Unidos exportam parte do petróleo produzido internamente e, simultaneamente, importam outras variedades de óleo cru necessárias para abastecer determinadas refinarias. Essas importações são negociadas com base nos preços do mercado internacional.

“Os Estados Unidos exportam parte do petróleo que produzem e importam outro tipo de petróleo para abastecer suas refinarias. Isso faz com que os preços internos acompanhem muito mais de perto as oscilações do mercado internacional”, afirmou Nivaldo de Castro.

Outro fator é a estrutura pulverizada do mercado americano. Diferentes empresas privadas participam das etapas de produção, refino, distribuição e comercialização, reduzindo a capacidade do governo de coordenar diretamente toda a cadeia de combustíveis.

Política externa e preço do petróleo entram no debate

Para Ticiana Alvares, diretora técnica do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), existe um contraste entre a cobrança feita por Trump às petroleiras e os efeitos da política externa americana sobre o mercado energético.

Segundo a especialista, situações de conflito aumentam a percepção de risco entre investidores e podem elevar rapidamente as cotações do petróleo.

“O preço do petróleo é formado em um mercado global e incorpora expectativas. Quando aumenta o risco de interrupção da oferta, o barril sobe rapidamente”, explicou.

A especialista destaca ainda que os Estados Unidos ampliaram sua participação nas exportações de petróleo e gás natural nos últimos anos. Com isso, a valorização da commodity pode aumentar as receitas de empresas do setor ao mesmo tempo em que eleva os custos do combustível para os consumidores americanos.

Brasil sente oscilações de maneira diferente

O Brasil também está sujeito às mudanças no preço internacional do petróleo, mas a organização da cadeia de combustíveis apresenta diferenças em relação ao modelo americano.

A Petrobras ainda concentra parcela significativa da produção de petróleo e da capacidade de refino brasileira, proporcionando maior integração entre essas etapas.

Segundo Castro, essa característica pode reduzir parte do impacto imediato provocado pelas oscilações externas, embora o mercado brasileiro não esteja isolado das variações internacionais.

“A integração entre produção e refino permite amortecer parte dos impactos das oscilações internacionais. Isso não significa que o Brasil fique imune às altas do petróleo, mas o repasse pode ocorrer de forma diferente do observado nos Estados Unidos”, afirmou.

Nos Estados Unidos, a combinação entre tensão geopolítica, preços internacionais, características das refinarias e uma cadeia de combustíveis descentralizada mantém a gasolina exposta às oscilações globais. Mesmo com a recente queda do barril de petróleo, os consumidores ainda podem levar algum tempo para perceber uma redução significativa nos preços nas bombas.

Fonte: g1, “Gasolina sobe 30% nos EUA e Trump cobra petroleiras; entenda o que está por trás da alta”, 5 de agosto de 2026.


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