Pacote anunciado por Washington atinge setores estratégicos e prevê sanções secundárias. Em Teerã, moradores correram aos postos e demonstraram preocupação com inflação e aumento do custo de vida.
Longas filas de veículos se formaram em postos de gasolina de Teerã nesta terça-feira, 25 de agosto, após os Estados Unidos anunciarem uma nova rodada de sanções econômicas contra o Irã. Segundo informações da Agence France-Presse (AFP) publicadas pelo UOL, a movimentação ocorreu em meio ao temor da população sobre os efeitos das restrições sobre combustíveis, alimentos e outros custos cotidianos.
As novas medidas fazem parte de uma estratégia apresentada pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, para ampliar a pressão econômica sobre o governo iraniano. O anúncio ocorre em um cenário de conflito prolongado, com negociações de paz paralisadas, manutenção do bloqueio naval americano e fechamento do estratégico Estreito de Ormuz pelo Irã.
Filas nos postos refletem preocupação com preços
Embora autoridades iranianas tenham minimizado inicialmente os possíveis impactos das novas sanções, moradores da capital demonstraram preocupação com o efeito das medidas sobre uma economia que já enfrentava inflação elevada antes da guerra.
Imagens divulgadas pela AFP mostraram filas de automóveis nos postos de combustível. O movimento ocorreu enquanto consumidores buscavam se antecipar a possíveis mudanças no abastecimento e nos custos. Relatos colhidos em Teerã também apontaram receio de que alimentos e outros produtos fiquem mais caros com o aumento da pressão econômica.
O chefe de gabinete do presidente iraniano, Mohsen Haji-Mirzaei, informou que o governo deverá revisar as cotas de gasolina. Segundo ele, a quantidade disponibilizada dentro da cota será reduzida sem alteração do preço correspondente, enquanto o combustível adquirido acima desse limite deverá custar mais caro.
A mudança poderá aumentar a preocupação das famílias que dependem do combustível além da quantidade subsidiada, especialmente em um ambiente econômico já marcado pela inflação.
Sanções atingem setores considerados estratégicos
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos informou que as novas medidas incluem sanções secundárias. Esse mecanismo amplia o alcance das restrições ao permitir que empresas, instituições e outros agentes que mantenham determinados negócios com o Irã também sejam atingidos.
Entre os setores citados estão ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Scott Bessent também advertiu que países que não acompanharem a política americana poderão enfrentar consequências relacionadas ao isolamento econômico imposto ao governo iraniano.
A pressão pode alcançar instituições financeiras estrangeiras. O secretário do Tesouro não descartou medidas contra bancos chineses e indicou que entidades envolvidas em operações consideradas de lavagem de dinheiro em benefício do Irã poderão perder acesso ao sistema baseado no dólar americano.
China rejeita medidas anunciadas por Washington
A China, apontada como uma importante compradora do petróleo iraniano, declarou oposição às sanções e afirmou que pretende adotar medidas para defender seus direitos e interesses. A posição chinesa adiciona um componente internacional às restrições anunciadas por Washington, diante do risco de que empresas e instituições de outros países também sejam afetadas.
O governo iraniano, por sua vez, afirmou estar preparado para enfrentar uma nova etapa de restrições. O ministro da Economia do país, Ali Madanizadeh, declarou à televisão estatal que o Irã vem se preparando há bastante tempo para cenários desse tipo.
Ao longo de décadas de sanções, o país desenvolveu mecanismos financeiros destinados a contornar limitações impostas à sua economia. A capacidade dessas estruturas de reduzir os efeitos das novas medidas, entretanto, volta a ser colocada à prova diante da ampliação da pressão americana.
Inflação e problemas internos aumentam incerteza
O economista iraniano Saeed Laylaz avaliou à AFP que as medidas fazem parte da estratégia de “pressão máxima” associada à política de Donald Trump em relação ao Irã. Na avaliação do especialista, anos de isolamento contribuíram para tornar a economia iraniana relativamente autossuficiente em diferentes áreas.
Laylaz, contudo, apontou dúvidas sobre a capacidade do governo de administrar simultaneamente os efeitos externos das sanções e problemas domésticos. Entre os desafios mencionados estão corrupção, desequilíbrios no sistema bancário e inflação.
A inflação elevada já era uma preocupação no país antes do atual conflito e esteve entre os elementos associados à onda de protestos contra o governo que alcançou seu ponto mais intenso em janeiro. O cenário econômico, portanto, coloca o impacto sobre o custo de vida entre as principais preocupações da população.
Estreito de Ormuz permanece no centro das negociações
Em paralelo à escalada econômica, representantes do Irã e de Omã discutiram alternativas relacionadas ao Estreito de Ormuz. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, e o chanceler omanense, Badr al-Busaidi, reuniram-se em Teerã para tratar da possibilidade de criação de um corredor temporário de navegação e do início de um processo de desminagem, segundo comunicado conjunto divulgado por Omã.
Com as negociações de paz sem avanço e a pressão econômica aumentando, os efeitos das novas sanções deverão ser acompanhados principalmente pelo impacto sobre preços, abastecimento e relações comerciais do Irã com outros países. As filas registradas nos postos de Teerã representam um dos primeiros sinais de preocupação da população diante dessa nova fase de restrições.
Fonte: UOL Notícias
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