Primeiro carregamento chegou ao país em 5 de agosto, enquanto capacidade russa de processamento de petróleo operou cerca de um terço abaixo da média sazonal em julho, segundo dados citados pela Bloomberg e pela Kpler.
A Rússia passou a importar gasolina da Índia pela primeira vez na história, em meio à redução da atividade de suas refinarias após uma sequência de ataques ucranianos. Segundo dados da Kpler divulgados pela Bloomberg e reproduzidos pelo InfoMoney, o primeiro carregamento chegou ao território russo em 5 de agosto de 2026, marcando uma mudança relevante nos fluxos tradicionais de combustíveis do país, que historicamente atua como fornecedor para mercados externos.
O combustível tem como origem a processadora indiana Nayara Energy, controlada pela Rosneft, maior produtora de petróleo da Rússia. O transporte envolve uma cadeia de navios-tanque ligados à Rússia e operações de transferência de carga na costa do Egito, principalmente no Porto de Damietta.
Queda na atividade das refinarias pressiona abastecimento
A necessidade de buscar gasolina a milhares de quilômetros de distância ocorre enquanto a Rússia enfrenta redução significativa em sua capacidade de refino. Após uma série de ataques, a EA Analytics estimou que a capacidade de processamento de petróleo bruto do país ficou em aproximadamente 3,6 milhões de barris por dia em julho, volume cerca de um terço inferior à média sazonal.
Desde então, segundo as informações divulgadas, a Ucrânia intensificou as ações contra instalações russas. Cinco processadoras teriam sido atingidas na semana anterior à publicação da reportagem, além de pelo menos outras duas na semana corrente.
Diante da pressão sobre a oferta doméstica de combustíveis, Moscou também proibiu as exportações de gasolina e diesel para priorizar o abastecimento interno.
Para Sumit Ritolia, analista-chefe da Kpler, a chegada de gasolina produzida na Índia chama atenção justamente pela distância envolvida. Segundo ele, essas cargas, somadas às importações já realizadas da Bielorrússia e de mercados vizinhos, demonstram a dimensão do desequilíbrio interno entre produção e demanda.
Primeiro carregamento levou 42 mil toneladas de gasolina
Dados de rastreamento de embarcações compilados pela Bloomberg mostram que o primeiro carregamento saiu da refinaria de Vadinar, na costa oeste da Índia.
O navio-tanque Cyclone, de bandeira russa e anteriormente denominado Agni, carregou 42 mil toneladas de gasolina em 18 de junho. A carga seguiu até o Porto de Damietta, na costa mediterrânea do Egito, onde foi transferida para o navio Garnet, de bandeira de Omã, em 6 de julho.
Depois da transferência, o Garnet prosseguiu viagem e chegou à Rússia no início de agosto. A Kpler registra 5 de agosto como a data de recebimento do primeiro carregamento de gasolina indiana pelo país.
A operação utiliza o modelo conhecido como transferência navio a navio, ou STS, sigla em inglês para ship-to-ship. Nesse tipo de operação, a carga é transferida diretamente entre duas embarcações, procedimento que pode ser utilizado para reorganizar rotas e reduzir o tempo de viagem de determinados navios.
Novas cargas podem estar seguindo para a Rússia
Outros movimentos registrados posteriormente indicam que a importação de gasolina indiana pode não se limitar ao primeiro carregamento.
O navio-tanque Varg carregou quase 40 mil toneladas de gasolina em Vadinar em 6 de julho e, segundo a Kpler, provavelmente realizou outra transferência navio a navio em Damietta no fim daquele mês. A análise foi baseada em mudanças observadas no calado da embarcação.
A companhia de inteligência de mercado identificou o navio Beast como possível receptor da carga, embora essa transferência não tenha sido confirmada. O Beast esteve em Damietta e registrou aumento de calado entre 30 e 31 de julho. Apesar de inicialmente sinalizar Tânger, no Marrocos, como destino, a embarcação ultrapassou o porto e passou a navegar em direção ao norte pelo Oceano Atlântico mantendo sua carga.
Outro navio, o Photon, de bandeira dos Camarões, deixou Vadinar em 13 de julho. Conforme os dados apresentados, sua carga de gasolina foi transferida em Damietta para o Talisman, de bandeira russa, entre 28 e 29 de julho.
A Kpler informou que os destinos finais do Talisman e do Beast permanecem sem confirmação. Ainda assim, a empresa avalia que o padrão comercial observado indica que Damietta continua funcionando como ponto de transferência para gasolina de origem indiana direcionada aos canais de importação russos.
Nayara utiliza embarcações da chamada “frota sombra”
A Nayara Energy opera uma refinaria com capacidade de 400 mil barris por dia em Vadinar. Desde que foi sancionada pela União Europeia em julho do ano anterior, a companhia passou a recorrer a navios-tanque associados à chamada “frota sombra” e a operações de transbordo tanto para receber petróleo bruto quanto para exportar combustíveis.
A refinaria também enfrenta a necessidade de ampliar seus mercados externos depois que um comprador relevante, a Hindustan Petroleum Corp., passou a produzir mais combustível próprio na região.
Entre as embarcações mencionadas nas operações, todas estavam registradas no registro russo, com exceção do Garnet. Segundo a reportagem, todos os navios citados foram sancionados pela União Europeia, enquanto Garnet e Talisman também são alvo de sanções dos Estados Unidos.
Conflitos ampliam pressão sobre mercado internacional de combustíveis
A mudança no fluxo de gasolina ocorre em um cenário de pressão sobre o mercado global de energia. Além dos ataques da Ucrânia às refinarias russas, a reportagem aponta que o confronto envolvendo Estados Unidos e Irã no Oriente Médio também contribui para interrupções e maior aperto nos mercados de combustíveis.
Para a Rússia, a necessidade de restringir exportações e recorrer a gasolina produzida na Índia representa uma alteração significativa em sua dinâmica de abastecimento. A evolução dos ataques às instalações de refino e o destino das novas cargas que deixaram Vadinar deverão ser fatores importantes para determinar se esse fluxo de importação continuará nos próximos meses.
Fonte: loomberg, com dados da Kpler e EA Analytics, reproduzidos pelo InfoMoney
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